O Preço da Gasolina e a Roubalheira na Petrobrás…

“Quando tinha aquela “roubalheira” na Petrobras a gasolina custava 2,69. Agora que “não tem” roubalheira a gasolina custa 5,20. Eu quero a “roubalheira” de volta.”

 

Lí essa frase num comentário de uma amiga numa rede social, ao qual respondí “pois é, assim que o povo deve entender isso tudo…” no que fui imediatamente replicado: “eu sou o povo”. Então me deu uma vontade enorme de responder ao Povo, até porque o tema é mesmo envolto em questões ideológicas e a mim cabe tentar tirar a ideologia da frente e analisar os fatos. E que oportunidade de ouro para explicar isso então, Povo! São vários os aspectos que influenciam o valor do combustível e torço para que vc me leia até o final… e vou usar 02.2016 como base oke? De lá para cá o que aconteceu?

Petróleo: Em primeiro lugar o preço do barril de petróleo dobrou nos últimos 4 anos (o Brent, referencia, passou de 30,00 para 60,00) o que já, naturalmente, dobra o valor da matéria-prima principal para produzir a gasolina. E a “Petrobrás extratora” não pode vender a matéria-prima subsidiada para a “Petrobrás refinadora” porque sería injusto com os 160 milhões de brasileiros que não consomem gasolina diretamente… Bem, voce pode alegar que o combustível entre 2012 e 2014 custava ao redor de R$ 3,00 enquanto o petróleo estava acima de US$ 100,00/barril. Verdade, e os motivos são compreensíveis: esse foi o periodo do “represamento (controle) de preços” e o de maior aceleração na perda de valor pela empresa, que queimava caixa para subsidiar as importações de combustíveis e vendê-los à preço descontado no mercado brasileiro. Uma grande queima de petróleo no caixa da empresa, ao longo de muitos anos culminando no maior prejuízo da história das companhias de capital aberto no Brasil: R$ 21,5 Bilhões de Reais em 2014. A Petrobrás ficou na inusitada situação de ser um monopólio estatal dona de todas as reservas de petróleo do seu país e que perdía valor enquanto o valor do petróleo – seu produto primário – batia recordes de alta de preços. E esse prejuízo foi, em grande parte (80%) causado por inépcia administrativa e comercial (subsidio de combustíveis) e não apenas por resultado da Lava Jato.

 

Balança Comercial e Cambio: Paralelo à isso tivemos um ciclo mundial que contribuiu para praticamente dobrar o valor do dólar no Brasil: se em 2008 (o ano da “marolinha”) o PIB da China, nossa maior compradora de commodities metálicas e agrícolas, crescía acima de 14% ao ano e inundava nosso país com dólares, essa taxa de crescimento diminuiu para menos de 7% ao ano de 2016 em diante (e agora estima-se em 5% para 2020), o que reduziu as compras da China e o ingresso de dólares no Brasil (não fosse pelo nosso querido e chutado e escarnecido agronegócio nossa pauta de exportação estaría muito mal). Oferta e demanda funcionando, quanto menor a oferta de dólares, mais alto o preço da moeda. E uma outra parte dos dólares que entrava no Brasil chegavam através de uma operação chamada “cash & carry” (o chamado ‘smart money’, ou seja, investidores pegavam dinheiro à juros próximos à zero no mercado internacional e investiam aqui a juros reais acima de 10% ao ano), essa operação se tornando desinteressante ao longo do tempo, até porque com a menor entrada de dólares ‘limpos’ e com o cambio livre (só depois de 2016) aumentou a volatilidade das moedas e o risco da operação (“de nada adiantava ao smart money ganhar 10% nos juros contra o Tesouro Nacional mas perder 15% qdo tivesse que comprar os dólares de novo para remeter ao exterior”). Imagina agora então com juros SELIC a 4,5%, o menor da história desse país e com esse desconforto político no qual estamos? Sem chance de entrar dólares novos, nem para investir nem para especular, motivo pelo qual estamos vendo o dólar subir novamente nas últimas semanas e os investidores brasileiros suplantar os estrangeiros na Bolsa… mas isso é outra estória…

Petrobrás – política administrativa e corrupção: E a Petrobrás nisso tudo? Paralelo às exportações em queda e ao dólar em alta instituiu-se na Petrobrás o maior esquema de corrupção já implementado em uma empresa paraestatal no mundo. Corrupção é uma hidra: além do roubo puro e simples do dinheiro público (“contrata-se para fazer por 100 o que gastaría 20, dividimos os 80”) ela tem outra cabeça ainda pior: as decisões administrativas começam a ser tomadas por motivos alheios à boa função da empresa. Projetos são criados com o simples intuito de roubar (veja Pasadena, Abreu e Filho, Comperj!!! (o absurdo da destruição ambiental) e nem vou falar de Belo Monte pq foge ao tema…), sem nenhum critério, num conluio de dança macabra entre políticos buscando dinheiro para suas campanhas eleitorais, a empresa tungada e grandes prestadores de serviços, tipo Odebrechet e… como se chama mesmo, Andrade Gutierrez? Sei… quanto dinheiro não foi investido da forma correta?? A ponto que o Pré Sal se tornou uma montanha que pariu um rato aquático, e um dos motivos pelo qual o petróleo continuou subindo… não houve dinheiro para investir na empresa, muito ocupada em fazer maus negócios para o povo (e bons negócios para seu povo).

Petrobrás e o populismo: E ainda na Petrobrás, em paralelo à isso também houve uma tentativa de subsidiar o preço da gasolina para tentar minimizar o impacto das duas primeiras causas, o que é remar contra a corrente do mercado mundial, pois ninguém em mínima sã consciencia faz isso (sim, a Venezuela o fez, a gasolina mais barata do mundo por anos e anos, e no que deu??) o que fez com que a Petrobrás não tenha sido totalmente privatizada (e nem será) talvez justamente por isso, por ser um cavalo enorme no qual todos os políticos iam lá injetar o veneno da cobra e no dia seguinte sangrar um pouco… e ela é “nossa empresa” povo, nosso patrimônio pago com impostos que todos pagamos, inclusive os que não tem automóveis, que foi sendo sangrada por poucos por muito tempo, todos os dias, a ponto da empresa valer menos que os seus ativos, em 04.02.2016 uma ação da Petrobrás chegou a valer R$ 4,45 (hoje está por volta de R$ 30,00). A Lava Jato veio dar o “beijo da morte”, sim, e pela primeira vez vimos políticos sendo presos por conta dos seus malfeitos e muita gente graúda em Brasilia. Mas isso é Brasil, a gente sabe, voce joga a rede e pega alguns ratos, os que estão alí no momento, muitos escapam. Muitos. Mas isso foi tão invigorante para o povo que o juiz (sem julgamentos) é uma das figuras mais populares entre… o povo!!

Dilma e o momento politico (02.2016): Mas não era só isso!! Do lado da política vínhamos de um processo eleitoral muito rasteiro e de uma grande tempestade que necessitava de um lider político forte, e “política” é o último substantivo aplicado à nossa ex-presidente. Recém eleita resolveu implementar, junto com Mantega e Coutinho, sua “Nova Matriz Econômica”, um arrazoado sem lógica de medidas macroeconomicas com forte intervenção estatal na economia, reeleita dobra a aposta. Dentre as várias medidas adotadas existia a figura dos Campeões Nacionais, empresas escolhidas à dedo (dedo… sim…) que tomavam empréstimos no BNDESpar (não do BNDES) à juros subsidiados, mas tudo dentro das leis, e que bom que as leis são divinas e perfeitas!  JBS (envolvida em inúmeros escândalos), Oi (quebrada, lulinha), OGX (falida, Eike, precisa dizer mais?), LBR (quem???), Fibria (salvou a Aracruz) e segue a fila. E se uma mão passa as malas de dinheiro a outra mão dá à conta-gotas: o grande erro técnico foi se multiplicando até nos financiamentos para caminhões para gente que aguardava um crescimento econômico que nunca mais veio, surfistas sentados nas suas pranchas numa praia seca, caminhoneiros sem carga. Dois anos atrás grevistas caminhoneiros, hoje motoristas de Uber (esse é um caso real, lamentável mesmo, uma familia destruida, um de muitos, o melhor funcionário de armazém de uma transportadora que me prestava serviços e a quem eu quería muito, pediu demissão, fez acordo, deu entrada num caminhãozinho… hoje é mais um no Uber, conseguiu comprar um voyage…)

Empossada, cereja do bolo, pecado dos pecados: para assumir a Economia chama Joaquim Levy, que havía sido dispensado pelo governo Lula,  um capitalista liberal (meio atrapalhado, nem eu mesmo sei se ele é isso) mas oposto ao que preconizava a candidata durante toda sua campanha. Vai entender. Ninguém entendeu. Deu no que deu. Dilma perdeu o cargo. Foi gopi? Sim, todo impeachment é um gopi, mas ela não fez nada contra isso, se apoiou na sua burocracia para domar um problema político e lhe faltou bom senso (na verdade lhe falta mais do que isso). consegue ver os antecedentes lá trás no tempo, povo meu querido?? Taí o Tramp para provar que um impeachment é um movimento político…

E a coisa vai vai vai, como num filme, nunca numa fotografia. A Lava Jato fez bem de tirar as sanguessugas do cavalo, a que preço é para ser questionado, mas nunca questionado o que foi feito a menos que voce, povo, goste de ser roubado ainda que pagando R$ 2,69 o litro da gasolina. O pessoal de Itaipava (distrito de Petropolis, região serrana do estado do Rio) que vendía 40kg de lagosta por semana e agora nem 10 deve concordar com isso, sentem todos muita falta da turma da Petrobrás… perdulários, não contavam dinheiro, era festa para todos, era festa atrás de festa… bons tempos quando essa elite vinha visitar minha cidade…

Enfim povo, de coração, espero talvez ter exposto os motivos pelos quais a gasolina está nos desagradáveis R$ 5,20 (sendo 50% impostos) e não à R$ 2,65, e que esse argumento é falacioso (e um pouco egoista, afinal somos 210 milhões de habitantes com uma frota de 37 milhões de automóveis, se estes carregarem todos os dias a média da familia brasileira (2,1 pessoas), teremos transporte para menos da metade da nossa população). Não é justo subsidiar a gasolina, quanto mais sabendo que a realidade é muito mais perversa do que a média (posso intuir que uma familia com 7 indivíduos na periferia de uma grande cidade não possuí mais que um automóvel, e que os automóveis que saem dos edificios em SP que oferecem “4 quartos + 4 vagas de garagem” rodam bem mais vazios. E ainda que eu rode 40.000km/ano, pelo menos no meu ponto de vista preferiria gasolina a 6,00, comida a 1,00, economia crescendo a 3% e GINI descendo 3 por ano, pois, de uma certa forma, o valor da nossa gasolina tb é reflexo da não existência dos nossos trens, do nosso serviço público de transportes, da economia e do que cada pessoa tem livre no final do mês para gastar…

Por fim, isso é uma ode ao governo atual? Longe disso povo, voce sabe, eu brigo com isso, sou um social-democrata que é a categoria de gente mais old fashion do mundo. Os radicais (radicais = aqueles que veem os fatos mas preferem acreditar na sua versão) de esquerda me chamam de vendido, que defendo o livre mercado (defendo a liberdade! 10 anos de Europa me fez um “mal enorme”), os radicais de direita me chamam de socialista porque eu digo que a grande doença desse país chama-se “distribuição de renda” (e os Austríacos batem na tecla de que o problema é “apenas” a “miséria” sem entender que deve ser um pouco diferente vc pregar o liberalismo na Suécia e no Brasil, defendo a liberdade! 10 anos de Europa me fez um “mal enorme”).

Marx e Mises podem dar as mãos, e ainda que eu prefira infinitamente o último ao primeiro, a idéia de ambos só existe num mundo de conto de fadas aonde todo ser humano vai operar no seu melhor em prol do outro ou o sistema vai dar conta de, pela extrema liberdade, corrigir tudo… tá, agora me conta outra! O preço da liberdade é a eterna vigilancia. Liberdade com vigilância, com instituições firmes porém sem ideologias (mas também sem escatologias), não para voce não fazer o que voce quer, cada um faz o que quiser e com certeza assim será um mundo melhor, mas para voce não fazer o que me fará dano só porque eu não quero fazer o que voce quer (e a corrupção, o nosso grande cancer, entra aqui).

Tomara, povo, que vc aceite meus argumentos como melhores… eu quero os preços baixo de volta, ou ganhar mais, tudo oke, o que eu não quero mais é a roubalheira de volta… Bjs!

Fontes:
https://br.tradingview.com/chart/?symbol=BMFBOVESPA%3APETR4
https://invst.ly/psv38
https://br.investing.com/commodities/brent-oil-historical-data
https://www.brasil247.com/midia/gaspari-1-bndes-criou-campeoes-de-desastres
https://noticias.r7.com/economia/frota-de-veiculos-no-brasil-e-a-mais-velha-dos-ultimos-18-anos-21042019
https://tradingeconomics.com/china/gdp-growth-annual
http://www.mdic.gov.br/comercio-exterior/estatisticas-de-comercio-exterior/balanca-comercial-brasileira-acumulado-do-ano
https://tradingeconomics.com/brazil/balance-of-trade
https://politica.estadao.com.br/blogs/legis-ativo/a-afonia-e-o-colapso-do-segundo-governo-dilma/
https://www.nexojornal.com.br/grafico/2017/10/16/A-trajet%C3%B3ria-do-pre%C3%A7o-do-combust%C3%ADvel-no-Brasil-nos-%C3%BAltimos-17-anos
https://economia.uol.com.br/noticias/redacao/2012/06/22/petrobras-reajusta-gasolina-em-783-e-diesel-em-394.htm
http://g1.globo.com/economia/negocios/noticia/2013/02/petrobras-tem-lucro-liquido-de-r-2118-bilhoes-em-2012-queda-de-36.html

 

Neymar, PSG e a Imagem do Brasil

Para muitos pode parecer frivolidade e besteira, mas para quem trabalha com outros países isso é de um desgaste… constrangedor. comportamento, valores, imagem, tudo torto até nos mínimos detalhes.

sim, somos do tamanho dos nossos heróis…

https://esporte.uol.com.br/futebol/ultimas-noticias/2019/08/12/xingado-pela-torcida-neymar-ja-some-de-lojas-do-psg-e-nem-vai-ao-estadio.htm

A Romania de 2002 e a Reforma da Previdência

Bom dia… eu sei que é meio chato falar de política e economia no domingo mas… é assim, cada um se diverte com o que gosta!

Muitos anos atrás, quando eu era magro e tinha cabelo – muito e preto (prova enclosed) visitei com amigos locais uma Romania “quase recém saída” do regime do Ceaucescu. O país era uma mistura de montanhas e cidades rurais do século XIX e Bucareste central, que parecia uma mistura de Paris dos anos 30 com prédios megalomaníacos do seu ultimo ditador soviético e blocos enormes de concreto nos quais pessoas moravam. Chamavam a isso de “prédios residenciais” como sabemos como são, os havia visto em Berlim.

Seu povo, pobre num país rico, fervorosos católicos que agora podiam expressar sua fé de que dias melhores viríam, por que naquele momento era apenas o que podiam fazer…

Enquanto passeava com meus amigos locais por Bucareste, tudo muito cinza, cidade sem cor, carros brancos, azuis e cinza apenas pontilhados por alguns vermelhos saudosistas, tentava buscar as perguntas para entender o que havia acontecido ali, até que entramos em um bairro específico. Mansões lindas, free estand ou pequenos prédios charmosos de 4 andares, em terrenos muito grandes mas um pouco mal cuidados, uma area elegantemente decadente. E daí meu amigo me disse: “isso tudo aqui era proibido de visitar durante o regime de Ceausescu…” e claro, entendia fácil o porquê: jardins, praças com canteiros de flores, percebia-se que havia sido um lugar muito bonito…

E eu perguntei: “e quem morava aqui? Quem construiu isso?”

Ele me explicou: “essas mansões foram feitas no curto ciclo de grande força econômica do país, entre as duas Guerras européias, éramos o maior produtor de petróleo da Europa e um dos maiores produtores de alimentos também, Bucareste era conhecida como “a pequena Paris”… mas fizemos escolhas erradas, o país se alinhou à Alemanha nazista e depois da Guerra, como éramos de menor interesse para os aliados que a Alemanha, entramos como moeda na troca e ficamos para a União Soviética…”

“- Uhm… é… e essas casas?”

“- Bem, essas casas foram abandonadas depois da guerra mas com a chegada dos Russos, primeiro elas foram usadas por eles e, depois, quando foram embora e deixaram seu governo-satélite, foram ocupadas pelos burocratas do governo…Nós não podíamos passar por aqui, era tudo fechado com blocos, arame farpado, guardas e cancela… esses eram os nossos magnatas comunistas!

“- como assim?”

“- Ganhavam bem, tinham seus próprios supermercados, lojas de roupas importadas da Europa e dos EUA, dirigiam seus carros, moravam nessas casas mas aí de quem dissesse alguma coisa! Vc não sabia se o seu novo vizinho não era da policia, e eles faziam exatamente isso: te forçavam a se mudar de onde vc vivia, da sua casa, do seu bairro, dos seus amigos… todo mundo, era compulsório, e te diziam “cuidado, seu novo vizinho pode ser da policia e estsr te vigiando…” e diziam isso para todos! Assim vc nunca, nunca sabia se voce iria ser denunciado por algima coisa (escrevendo isso hj eu me lembro do projeto do Lucio Costa para Brasilia, me dá calafrios…). A Revolução Comunista, tanto aqui quanto na Rússia e nos outros países satélite foi, na verdade, a substituição da elite burguesa arcaica e exploradora pela elite de funcionários públicos, arcaicos, eles mesmo burgueses, e exploradores. Na fábrica onde eu trabalhava – forçado, porque não queria mas um trabalho me foi determinado, ganhava o equivalente à 400 rublos, todo mundo ganhava isso e 90% era infeliz.. mas a gente se acostuma. Por sorte não tocaram em parte das terras da minha família, muito trabalho para eles, e fazíamos algum dinheiro extra vendendo lenha no inverno…”

“E agora?” “Agora não sabemos…”

“- E o que aconteceu com essas pessoas, esses burocratas que moravam aqui?” “-bem, muitas já morreram, seus descendentes sumiram, outros foram presos, acusados de roubar, mas vc sabe, tiramos uns, entram outros… só não moram mais aqui… muita visibilidade! Os mais inteligentes no início do processo foram embora, grande parte para Moscou, aprendemos. Cirílico na escola, outros para Paris, afinal, éramos ou não a “pequena Paris? E hoje temos os novos magnatas do petróleo e a Mafia local… rsrsrs, mas temos novos negócios, hoje as empresas de fora começam a olhar para nós…

Resumo, hoje a Romênia é parte da União Europeia e tem um PIB per capita (PPC) de mais de US$ 19.000,00 e IDH 0,811 contra os US$ 15.600,00 e IDH 0,759 do Brasil. Somos próximos hoje, além do idioma de base parecida (voce, com boa vontade e criatividade consegue ler algo em Romanche). E em comum tanto lá quanto cá a elite dos funcionários públicos… por 40 anos uma pequena classe de burocratas, privilegiados pela proximidade do poder e que organizaram um país para lhes dar conforto e segurança enquanto que os demais cidadãos vivem nos 400 rublos + dinheiro da lenha. É justo o protesto deles, afinal de contas não criaram as regras, apenas as seguiram. Mas não lhes deixam mudar, essa é a diferença tanto la quanto cá e, na era dos extremos, fazer qualquer crítica aos privilégios de poucos é quase crime lesa-pátria, não podemos. Mas fica a provocação, fica a ideia de que por mais difícil que seja abrir mão de uma gorda aposentadoria cedo na vida para gozar por muitos anos, talvez até mais do que os que passou trabalhando, é a justiça e a ética para além dos privilégios legais que está em jogo. Nesse momento estamos laceando a corda dos funcionários públicos e deixando a outra corda tensa. Não é justo.

O MST na Holanda (e o que voce deve saber sobre ocupação fundiária e territorial no Brasil)

O MST na Holanda!
Para aqueles que ainda não sabem , estou na Holanda, vim para trabalhar por uma semana e tambem rever amigos queridos. Nesse fim de semana participei de uma das mais tradicionais e únicas tradições Holandesas, a festa de Sinterklaas, ou de São Nicolau, que no dia 05.12 vem da Espanha com seu auxiliar, Zwarte Piet (essa é uma outra looonga estória…) para distribuir presentes… é o nosso relativo ao 24.12 no Brasil e outros países católicos… mas, novamente, essa é uma outra estória…
A estória que eu quero contar aqui é diferente. Num dado momento um dos meus sobrinhos (troquei fraldas, dei papinha, brinquei, fui babysitter dos três, então sou tio!), de 14 anos, chega para mim e me diz: “Mario, que bom que voce está aqui! tenho uma apresentação sobre o Brasil amanhã no colégio… voce sabe alguma coisa sobre o “MST e como os grandes fazendeiros expulsam os pequenos proprietários das suas terras no Brasil”?
Oi? Como???
“é, a professora pediu, temos que fazer uma apresentação sobre o Brasil, sobre o agronegócio, o MST…”… “Entendo”, disse eu, “pois bem, coincidencia ou não essa é uma das minhas áreas de conhecimento, vou te explicar a minha visão que pode ser diferente da visão da sua professora, mas vou te mostrar o filme e não a foto oke?” E comecei a desconstruir, com fatos e dados, o ponto central da questão que ele me apresentou, e a lhe mostrar que existem vários Brasís dentro de um lugar só chamado Brasil e como essa coisa toda funciona…
Comecei por aqui: “bem, para existir agricultura voce precisa de 4 fatores fundamentais: “terra, água, conhecimento e capital, oke?”, mas antes de falar sobre isso preciso te explicar um pouquinho sobre como ocorreu a ocupação do território do Brasil. E fui lhe mostrar a Historia do Brasil, uma pequena parte.
Comecei em 1494, com o Tratado de Tordesilhas que dividia o Mundo conhecido e desconhecido entre Portugueses e Espanhois sob as bênçãos do Papa. Mostrei o país dividido em 15 capitanias hereditárias, concedidas aos amigos do Rei para que fossem explorados seus recursos naturais, pois Portugal não tinha recursos para explorar o novo território. A primeira imagem que lhe mostrei é histórica, sobre como ocorreu a ocupação do espaço “recém descoberto” (não vou entrar nessa discussão aqui) pelos Portugueses e que mais tarde veio a se chamar Brasil.
Ele me perguntou sobre essa parte amarela e eu lhe disse que pertencia aos Espanhóis, mas que estes demonstravam pouco interesse naquelas terras do centro do continente, ocupados eles que estavam com a prata, o ouro e as esmeraldas na costa Andina (Peru, Bolivia, Colombia…), e então ilhe expliquei o que foram as Entradas e Bandeiras.
Falei sobre a “relação” entre a população autóctone e os invasores, sobre o escravagismo dos indios e também do seu exterminio em massa por doenças ou armas, o que fez com que os Portugueses começassem a trazer negros da África, assim como seus contemporâneos ingleses fizeram nas colônias da América do Norte. Contei estórias, ou historias, sobre os ciclos da Carne, do Açúcar, do Café, do Ouro… expliquei um pouco sobre a Abolição da Escravatura e sobre como, com isso, os negros fugidos ou recém libertos, sem dinheiro nem estudos nem trabalho se juntaram em guetos, no campo chamados Quilombos, nas cidades que começavam a se formar, as Favelas. Expliquei então sobre as migrações Européias e Japonesa para o Brasil para substituir os negros alforriados desde a segunda metade do século XIX, sobre como vieram os Alemães, os Italianos, Espanhois, Poloneses e tantos mais Europeus fugidos da Grande Fome do final do século retrasado na Europa (e como os Irlandeses foram para os EUA) e chamados para trabalho remunerado e ganhar algum dinheiro, dinheiro juntado com muito sacrificio para poderam comprar seus primeiros pedaços de terra para fincar raízes. E daí começei explicando a urbanização e como as pequenas propriedades começaram a aparecer, primeiro na região sul do Brasil, área montanhosa e fria que atraiu os imigrantes europeus, vindos com sua cultura de pequenas áreas de trabalho e espírito cooperativo, e depois principalmente os japoneses em torno dos primeiros núcleos urbanos que começavam a se formar e como a forte têndencia gregária dos japoneses os trouxe para próximo de seus conterrâneos já instalados no país. E mostrei que, diferentemente do que acontecía na região Sul e Sudeste, nas regiões Centro, Nordeste e Norte do Brasil as coisas não eram assim… esperava a pergunta que veio afinal: 
“e porque não é assim nessas outras regiões?”…
uhm, vamos lá então falar sobre outros fatores que afetam a presença do homem no território e a agricultura e produção de alimentos em geral, vamos falar de Solo e Água. Então lhe mostrei essas duas imagens, muito relevantes mas desconhecidos para a grande maioria das pessoas: o pH do solo e o regime de chuvas:
Terra:
O pH do solo, lhe disse, é um dos fatores mais importantes na agricultura, ele é quase um resumo (o certo sería usar a palavra “proxy”) da qualidade de solo que voce tem disponível para agricultura. Solos muito ácidos ou muito alcalinos não são bons para a agricultura, entretanto o ser humano vem trabalhando em solos alcalinos por muitos milhares de anos, principalmente na nossa civilização ocidental, desenvolvendo técnicas e selecionando variedades que vão melhor nesse tipo de pH, mas o conhecimento, a técnica e mesmo o custo de transformar solos ácidos em solos de pH neutro (o melhor para a agricultura) é relativamente recente e custa muito, muitos recursos… então, se voce olha o mapa de pH do mundo voce verá que as áreas mais nobres para a produção agrícola são as de pH de neutro para alcalino, como o meio-oeste norte americano, a Ucrania, partes do sul verde da África e norte da China. E isso é determinado pela idade do solo (o Brasil está em uma área muito antiga do continente, dessa placa tectônica), pela temperatura e pelo regime de chuvas (o que implica na velocidade das reações químicas). E isso é fato, e o fato  é: o solo do Brasil é, via de regra, ruim para agricultura.
E para aprimorar essa visão lhe mostrei uma foto que eu tireiem Santa
Cruz – RN, nalgum momento no meio do ano passado (2017)… primeiro essa…
Santa Cruz – RN, Brasil
e ele disse “seco”…
então lhe chamei atenção para um detalhe na foto…
Santa Cruz, RN, Brasil, Zoom showing bridge over a dry riverbed

e ele disse: “uau, tem uma ponte lá, enorme, mas não tem nenhum rio embaixo dela!!” eu confirmei e então lhe perguntei: “de que vale terra sem água?” e ele me disse “nada”, e eu continuei, “então, me diz, aonde as pessoas donas ou herdeiras daquelas capitanias hereditárias no nordeste dão acesso ou direito à terras para as pessoas de lá?” e ele me respondeu “no meio daquela mancha vermelha sem chuva não é?” … “É…”

E terminei essa explicação perguntando: “e então qual é a conclusão?” ao que ele me olhou intrigado e eu lhe respondí: “a conclusão é essa” e mostrei a seguinte imagem:

brazil at night from space. Notice that population is concentrated at the coast, where the rainfall regime is more steady and access to logistics easier.
Ninguém no interior do país!!
E aqui as coisas começam a ficar interessantes… em primeiro lugar então temos, entre o final do século XIX e inicio do século XX, uma massa de imigrantes europeus que vêm para o Brasil e ocupam a região Sul, principalmente a área costeira, e as áreas montanhosas da região Sudeste (Rio e Espírito Santo), imigrantes acostumados a lidar com pequenas propriedades nos seus países de origem, e também acostumados a trabalhar juntos quer em sistemas de mutirão ou de cooperativas. Ainda no Sul/Sudeste temos uma grande produção de café (não coincidentemente numa área agrícola que vai do oeste de SC até o oeste do estado de SP e que é conhecida como Terra Roxa Estruturada,  um solo oriundo do derramamento de basalto dos antigos vulcões extintos no Brasil, e um solo muito fértil e produtivo, de pH em torno de 5,5 enquanto nas demais áreas do país o pH é em torno de 4 – sendo essa uma escala logaritmica, ou seja, 4 é 15x mais ácido do que 5,5 entende???) que vai atraindo os imigrantes, principalmente os italianos e espanhois. Entretanto no Nordeste as mudanças são poucas: o regime de chuvas, o regime de exploração da terra, as diferenças socio-econômicas e culturais vão mantendo a distância enorme entre os grupos sociais, numa estrutura de exploração agropecuária retrógrada. No Norte a Amazônia dominava, o Ciclo da Borracha enriquecia poucos bolsos e o Brasil detinha o monopólio da seringueira (a Fordlândia, fundada em 1928 para explorar o látex na Amazonia está aí para provar essa parte da estória…) mas, no Centro-Oeste, nada, absolutamente nada, uma vez que pelos olhos da tecnologia disponível nas primeiras décadas do século XX tanto o solo extremamente ácido da região quanto o regime de chuvas (6 meses de chuvas, 6 meses de seca) praticamente inviabilizava grandes aproveitamentos extensivos da terra. Pois assim ía o Brasil nas primeiras décadas do século passado, entre pequenas propriedades próximas às cidades que cresciam sem parar, pequenos produtores integrados às embrionárias cadeias produtivas no Sul do país e grandes produtores tanto de café no Sul/Sudeste quanto de cana de açúcar no Nordeste e borracha (e cacau) na Amazonia.
O tempo passa. Em SP em em MG vários ciclos produtivos se iniciam, a laranja e a cana-de-açúcar em particular enquanto que, no Sul, os imigrantes que chegaram no inicio do século e compraram suas pequenas propriedades com seu trabalho começam a se retirar da lida diária, enfrentando entretanto um grande desafio: direitos sucessórios. Como passar adiante um pequeno pedaço de terra, agora para ser dividido entre tantos filhos, para que possam dele sobreviver? A primeira pressão demográfica começa a acontecer no sul do país, em SC o preço das terras aumenta, o relevo não é favorável e os desmatamentos propiciam deslizamentos de terra, até que um fenomeno meteorológico extremo e decisivo empurra vários produtores agrícolas para uma nova fronteira: a grande geada em 1975 que destrói completamente os cafezais do oeste do Paraná e do interior de SP e que leva os produtores a buscar novas áreas e novas culturas agrícolas. E esse movimento não é isolado: o país tem uma nova capital no Centro-Oeste, a EMBRAPA (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) fundada em 1973 em consonância com a Revolução Verde a nível mundial, inicia uma série de desenvolvimentos científicos que revolucionaríam a produção de alimentos. Além disso a EMBRAPA tinha o mandato de ajudar o país a aumentar os ingressos de divisas internacionais para contrabalancear o aumento vertiginoso do preço do barril de petróleo, na primeira grande crise do óleo, também em 1973. O país precisava de um agronegócio que encarasse a atividade agrícola com outros olhos, que aportasse conhecimento e que gerasse riqueza. E a EMBRAPA, juntamente com algumas universidades de Agronomia do Brasil (UVF em particular), desenvolveram vários cultivares e variedades de várias gramíneas, oleaginosas e outras (soja, milho, sorgo, milheto, algodão, vários tipos de capim para alimentar gado, etc), todas adaptadas às condições do Centro-Oeste (resistentes à seca, resistentes à presença de aluminio no solo (outro problema no Brasil), resistentes ao baixo pH, resistente às doenças tropicais, às pragas e outros patógenos daninhos que atacam as plantas) o que possibilitou, pela primeira vez, o assentamento de novos colonos nas novas fronteiras agrícolas brasileiras (MS, MT, GO, sul do PI, MA, TO), a criação de novas cidades e novos negocios, novas oportunidades para migrantes do RS e SC principalmente, novas oportunidades em um território com terra muito barata e que, ainda que de má qualidade inicial, com a aplicação de novas tecnologias desenvolvidas, muitas possibilidades de desenvolvimento! Entretanto, sim, de tudo isso uma outra parte da equação ainda ficou em aberto: como fazer para escoar a produção de grãos do Centro-Oeste para os centros consumidores, dentro e fora do país? Isso porque o Brasil é refém de uma infraestrutura de transporte terrestre e maritimo muito deficiente e insuficiente para as necessidades do país. Então, para ser produtor de qualquer tipo de produto agropecuário no Brasil, principalmente na área central do país não basta “apenas” querer, é necessário mais do que isso, é necessário ter o poder administrativo e econômico para produzir em local de tão dificil acesso.
MST
“Ah mas e o MST?” Pois é… o MST é um movimento interessante, aliás, a discussão sobre a posse da terra é um assunto muito interessante mesmo! E por que? Porque é o que de mais anacrônico um pode querer discutir! O MST é um movimento que nasceu no bojo do governo militar no Brasil e foi um destinado à discutir um modelo de assentamento de terras em um mundo onde a tecnologia não dominava a agricultura o que sería, hoje, como ter uma discussão sobre o direito do uso de charretes quando todos nós usamos automóveis. Discussão sobre terra é algo do século XIX, começo do século XX, uma pessoa passar de “sem-terra” para “com-terra”, sem nenhum dos outros três fatores fundamentais é pura perda de tempo. De que adianta criar assentamentos de pequenos produtores em regiões de agricultura extensiva e nao intensiva, como aquelas próximas às cidades?? De que vale invadir fazendas ou largas extensões de terra para quem não tem acesso à conhecimento e capital para fazê-las produzir em quantidade e no custo adequado para ser competitivo, para dar de sustento à uma pessoa, quem dirá uma familia? Pense bem: um hectare (10.000m2) produz em média 3.500kg (60 sacas de 60kg) de soja que valem hoje no mercado algo em torno de US$ 20,00/sc ou US$ 1.200/ha de receita, isso fora as despesas… ou seja, levando-se em conta que um agricultor médio tenha 10% de margem bruta de lucro estamos falando de R$ 480,00/ha/ano, isso contando que tudo deu certo, que tudo foi bem…
então a pergunta que fica é, e foi a mesma que eu fiz para meu sobrinho: é mesmo verdade que os grandes fazendeiros expulsam os pequenos de alguma área ou o que acontece é que os pequenos não podem nem conseguem sobreviver às complexidades de produzir commodities em grandes áreas, por falta de condições de conhecimento e financeiras? E, se assim for, qual é a alternativa para essas pessoas além de serem instrumentos nas mãos daqueles que lhes insuflam à invadir fazendas como se fossem resolver suas vidas ou, pior, como se fossem puxar para baixo as vidas daqueles que eles invadiram as propriedades?
Então esse foi o assunto de domingo, uma conversa simples, baseada em fatos e não em factoides, baseada em ciência e não em achismo, baseada em idéias e não em ideologias. E como é um assunto que eu acredito que seja de interesse ou curiosidade de várias pessoas eu resolví estender essa discussão para que mais pessoas tenham acesso à essas informações e que possam questionar, complementar, colaborar ou mesmo discordar, mas sempre tendo alguma fonte fidedigna de informação para se basear.
espero que ajude.
abraços
MNG

No Left no Right no More!

The “discussion” has evolved, has shifted from the old XXth century to a new, more “left/right” to “economic/social”. The more and more we’ll see terms as “economic liberal and socially conservative” (Merz) or “economic socialist and socially conservative” or “economic conservative and socially liberal” (Delanoe, NY mayor or governor…)

New economic-political topology, much more adequate to current days.

https://www.theguardian.com/worlkd/2018/oct/31/rightwinger-leads-race-to-succeed-angela-merkel-as-party-chair

The Long Awaited Letter

Marcando o 500º aniversário do desafio de Martinho Lutero para a igreja estabelecida, o New Weather Institute e o grupo de campanha Rethinking Economics, com a contribuição de uma grande variedade de economistas, acadêmicos e cidadãos interessados, estão desafiando o ensino geral da economia e publicando o apelo a uma nova reforma em 33 teses para uma reforma econômica.

Quinhentos anos atrás na Europa, um único sistema de crença dominava todo discurso público: o cristianismo católico. Aqueles que eram considerados especialistas neste conjunto de crenças possuíam um poder imenso, uma vez que lhes permitia reivindicar autoridade exclusiva em todos os assuntos – desde as regras de comportamento até o direito de governar. Kings e Queens ouviram seus conselhos e temiam suas críticas. Os intelectuais submetidos aos limites da sua ideologia, a fim de libertar-se disso, precisavam de uma imaginação e coragem excepcionais. As pessoas comuns podem ter dúvidas, mas os sacerdotes protegem suas teorias falando em um idioma que o público não conseguia entender, escondendo qualquer evidência contraditória.

Existe agora uma situação similar na economia neoclássica. Desenvolveu-se como um sistema de crença, derivando todas as suas teorias de alguns princípios fundadores que eles próprios passam inquestionáveis. Ele passou a dominar o debate público e a tomada de decisões; e seus proponentes reivindicam autoridade especial para se pronunciar sobre todos os assuntos – do dinheiro e das economias para a migração e a soberania. Seu ensino assumiu as características de doutrinação: os alunos são convidados a memorizar e repetir, em vez de criticar e avaliar. Aqueles que disputam suas teorias fundamentais são ignorados ou marginalizados. Sua linguagem matemática, aparentemente sofisticada, apresenta ao público um folheto de especialização, enquanto obscurece os julgamentos de valor, a adivinhação e a incerteza, que é, às vezes, tão inquebrável como qualquer sistema de crenças baseado na fé.

Quinhentos anos atrás, Martin Luther quebrou o controle do sistema de crenças monopolistas de seu tempo, com “95 teses” que suas falhas claramente na linguagem comum, tornando-as claras para todos verem e propondo o início de uma nova maneira frente. Nós propomos uma nova 33 Teses para uma Reforma Econômica.

Ei-la!

http://www.newweather.org/wp-content/uploads/2017/12/33-Theses-for-an-Economics-Reformation.pdf

Será que o que pensamos pode estar errado? O dinheiro não aguenta desaforo. (mensagem à esquerda-arcaica)

Então, quem diría, ontem o Banco Central baixou a taxa de juros em 0,75%! Resultado de uma inflação finalmente decrescente (mas por um motivo não muito auspicioso) depois de vários trimestres em alta e de uma conjuntura favorável o Banco Central (hoje mais independente do que era no tempo do… como era mesmo o nome do gordinho??) entendeu o BC que existe espaço para uma queda mais ampla nos juros, o que confirmará ao mercado alguma confiança de que a trajetória da inflação é redutora.
 
Interessante… sem decreto nem discurso, sem palavras de ordem nem faces raivosas maldizendo A ou B, simplesmente temos hoje uma taxa de juros que começa a dar sinais que entra nos eixos. E daí resolví escrever uma mensagem aos meus amigos da esquerda-arcaica, espero que possam ler com algum interesse e, quem sabe, rever as suas idéias e conceitos. Quem sabe consigam enxergar a natureza sistêmica da economia, seus equilíbrios dinâmicos e como não existe nada que possa ser alterado radicalmente através de decretos.
 
Taxa de Juros primária. O que é isso? Simplificando, é o quanto o Governo tem que pagar para que financiem os seus déficits. E é como emprestar dinheiro a alguém: quanto menos confiável a pessoa é, mais caro devería ser os juros que voce cobra, normal. E é o que o mercado faz. Quando um governo começa a tomar decisões por decreto, sem respeitar os equilíbrios dinâmicos da economia, criando déficits primários, bagunçando as transferências de recursos entre uma entidade governamental e outra (tal como BNDES, Caixa, BB, Tesouro Nacional, etc), ele fere esse pressuposto e com isso os monitores do sistema (as agências de risco) levantam o cartão amarelo (ou baixam o ‘rating’ do país). Com uma percepção maior de risco o governo então tem que aumentar os juros, afinal, quem detém o dinheiro (lembre-se: o governo, ainda que arrecade muito, consegue ser deficitário e justamente porque tem que pagar juros altos!), investidores ou fundos de pensão, não querem, nao se sentem seguros ou não podem investir em empresas ou países com rating abaixo de um determinado limite. Então o que o governo tem que fazer? Aumentar ainda mais os juros. Nesse sistema todo, em toda essa equação qual é a variável que ‘mexe” com as outras??? Eu digo: é a credibilidade das ações tomadas.
 
O interessante das taxas de juros caindo é que isso faz com que investidores venham para o mercado “real” e não deixem o seu dinheiro parado no mercado financeiro, quanto mais em um país com tantas oportunidades de investimentos como o Brasil. Infraestrutura por desenvolver, 200 milhões de habitantes, temos inúmeras oportunidades de negócios, mas como um investidor, que é um ser racional, vai investir em escolas por exemplo, ou ferrovias, se, a taxa de juros quase sem risco nenhum (taxas do Tesouro Direto, por exemplo), pagam muito mais do que um retorno normal de quase qualquer negócio??? Que negócio hoje, sem risco, paga 14,5% ao ano por 20 anos?? Nenhum!!!!! Os bons capitalistas, aqueles que gostam de correr riscos e se aventurar em empreitadas, sabem que o único remédio é termos taxas de juros mais baixas, ainda muito mais baixas do que estão mas, claro, como bons capitalistas, conhecedores e respeitadores das leis da economia sabem que não adianta baixar as taxas de juros por decreto, na vontade e na marra. Novamente, é um sistema, é como água em um sifão, se voce abaixa ela aqui ela vai subir nalgum outro lugar (ou é na inflação e/ou é no cambio e/ou é no desarranjo dos preços relativos das coisas).
 
Quem já teve paciência de ler alguma coisa que eu tenha escrito sabe que eu nunca ataquei o governo do pt por ter defendido (mas não implementado) políticas consideradas mais à esquerda mas por uma série de erros básicos, primários, na condução da política econômica que levaram a um desarranjo total entre os componentes do sistema econômico. Fizeram déficits primários crescentes, criaram ‘campeões nacionais’, meteram a mão no caixa das empresas… in summa, fizeram um estrago, uma bagunça na economia. Eu não defendo a legitimidade do Temer na cadeira da Presidência da República mas tenho que admitir que, do ponto de vista econômico, as ações tomadas até agora podem vir a diminuir ainda mais as taxas de juros, o que trará várias consequências interessantes ao país: leve valorização do Real, o que ajudará os exportadores; boom na Bolsa de Valores, o que levará dinheiro ‘mais barato’ para as empresas e, consequentemente, maior capacidade de investimento e maior competitividade; aumento do interesse de investidores de todos os tamanhos para produzir ao invés de investir no mercado financeiro, o que aumentará a quantidade de empregos; contas públicas com a hemorragia estancada, o que facilitará o aumento do rating do país e, consequentemente, a diminuição das taxas de juros novamente… e por aí vai.
 
Enfim, o que eu quero dizer com isso tudo é que a economia é um sistema e que é um sistema com um ciclo e um periodo de maturação. Não adianta querer tirar o bolo do forno antes da hora (como fez o governo da esquerda-arcaica), não adianta querer apressar as consequências dos atos e das suas consequências, tudo tem um período de maturação e percepção do mercado sobre SE e COMO determinadas medidas impactam no comportamento da economia e dos agentes financeiros para daí então darmos outro passo adiante.
 
O que eu mais espero, ao final disso tudo, é que uma vez mais no grande ciclo político, que sucede o econômico, o próximo governo de esquerda não seja arcaico como foi o do pt, que não sucumba aos maneirismos que fazem parte do status quo (e do qual os petistas abraçaram com fervor) e que se possa finalmente tirar nosso povo da pior miséria que existe: a educacional e, sucessivamente, a intelectual.
 
Boa sorte, bom dia

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