Será que o que pensamos pode estar errado? O dinheiro não aguenta desaforo. (mensagem à esquerda-arcaica)

Então, quem diría, ontem o Banco Central baixou a taxa de juros em 0,75%! Resultado de uma inflação finalmente decrescente (mas por um motivo não muito auspicioso) depois de vários trimestres em alta e de uma conjuntura favorável o Banco Central (hoje mais independente do que era no tempo do… como era mesmo o nome do gordinho??) entendeu o BC que existe espaço para uma queda mais ampla nos juros, o que confirmará ao mercado alguma confiança de que a trajetória da inflação é redutora.
 
Interessante… sem decreto nem discurso, sem palavras de ordem nem faces raivosas maldizendo A ou B, simplesmente temos hoje uma taxa de juros que começa a dar sinais que entra nos eixos. E daí resolví escrever uma mensagem aos meus amigos da esquerda-arcaica, espero que possam ler com algum interesse e, quem sabe, rever as suas idéias e conceitos. Quem sabe consigam enxergar a natureza sistêmica da economia, seus equilíbrios dinâmicos e como não existe nada que possa ser alterado radicalmente através de decretos.
 
Taxa de Juros primária. O que é isso? Simplificando, é o quanto o Governo tem que pagar para que financiem os seus déficits. E é como emprestar dinheiro a alguém: quanto menos confiável a pessoa é, mais caro devería ser os juros que voce cobra, normal. E é o que o mercado faz. Quando um governo começa a tomar decisões por decreto, sem respeitar os equilíbrios dinâmicos da economia, criando déficits primários, bagunçando as transferências de recursos entre uma entidade governamental e outra (tal como BNDES, Caixa, BB, Tesouro Nacional, etc), ele fere esse pressuposto e com isso os monitores do sistema (as agências de risco) levantam o cartão amarelo (ou baixam o ‘rating’ do país). Com uma percepção maior de risco o governo então tem que aumentar os juros, afinal, quem detém o dinheiro (lembre-se: o governo, ainda que arrecade muito, consegue ser deficitário e justamente porque tem que pagar juros altos!), investidores ou fundos de pensão, não querem, nao se sentem seguros ou não podem investir em empresas ou países com rating abaixo de um determinado limite. Então o que o governo tem que fazer? Aumentar ainda mais os juros. Nesse sistema todo, em toda essa equação qual é a variável que ‘mexe” com as outras??? Eu digo: é a credibilidade das ações tomadas.
 
O interessante das taxas de juros caindo é que isso faz com que investidores venham para o mercado “real” e não deixem o seu dinheiro parado no mercado financeiro, quanto mais em um país com tantas oportunidades de investimentos como o Brasil. Infraestrutura por desenvolver, 200 milhões de habitantes, temos inúmeras oportunidades de negócios, mas como um investidor, que é um ser racional, vai investir em escolas por exemplo, ou ferrovias, se, a taxa de juros quase sem risco nenhum (taxas do Tesouro Direto, por exemplo), pagam muito mais do que um retorno normal de quase qualquer negócio??? Que negócio hoje, sem risco, paga 14,5% ao ano por 20 anos?? Nenhum!!!!! Os bons capitalistas, aqueles que gostam de correr riscos e se aventurar em empreitadas, sabem que o único remédio é termos taxas de juros mais baixas, ainda muito mais baixas do que estão mas, claro, como bons capitalistas, conhecedores e respeitadores das leis da economia sabem que não adianta baixar as taxas de juros por decreto, na vontade e na marra. Novamente, é um sistema, é como água em um sifão, se voce abaixa ela aqui ela vai subir nalgum outro lugar (ou é na inflação e/ou é no cambio e/ou é no desarranjo dos preços relativos das coisas).
 
Quem já teve paciência de ler alguma coisa que eu tenha escrito sabe que eu nunca ataquei o governo do pt por ter defendido (mas não implementado) políticas consideradas mais à esquerda mas por uma série de erros básicos, primários, na condução da política econômica que levaram a um desarranjo total entre os componentes do sistema econômico. Fizeram déficits primários crescentes, criaram ‘campeões nacionais’, meteram a mão no caixa das empresas… in summa, fizeram um estrago, uma bagunça na economia. Eu não defendo a legitimidade do Temer na cadeira da Presidência da República mas tenho que admitir que, do ponto de vista econômico, as ações tomadas até agora podem vir a diminuir ainda mais as taxas de juros, o que trará várias consequências interessantes ao país: leve valorização do Real, o que ajudará os exportadores; boom na Bolsa de Valores, o que levará dinheiro ‘mais barato’ para as empresas e, consequentemente, maior capacidade de investimento e maior competitividade; aumento do interesse de investidores de todos os tamanhos para produzir ao invés de investir no mercado financeiro, o que aumentará a quantidade de empregos; contas públicas com a hemorragia estancada, o que facilitará o aumento do rating do país e, consequentemente, a diminuição das taxas de juros novamente… e por aí vai.
 
Enfim, o que eu quero dizer com isso tudo é que a economia é um sistema e que é um sistema com um ciclo e um periodo de maturação. Não adianta querer tirar o bolo do forno antes da hora (como fez o governo da esquerda-arcaica), não adianta querer apressar as consequências dos atos e das suas consequências, tudo tem um período de maturação e percepção do mercado sobre SE e COMO determinadas medidas impactam no comportamento da economia e dos agentes financeiros para daí então darmos outro passo adiante.
 
O que eu mais espero, ao final disso tudo, é que uma vez mais no grande ciclo político, que sucede o econômico, o próximo governo de esquerda não seja arcaico como foi o do pt, que não sucumba aos maneirismos que fazem parte do status quo (e do qual os petistas abraçaram com fervor) e que se possa finalmente tirar nosso povo da pior miséria que existe: a educacional e, sucessivamente, a intelectual.
 
Boa sorte, bom dia