Qual religião professa um elefante ao lembrar aonde enterrou seus mortos?

Spread the love

Uma das observações que mais espantaram os estudiosos da vida animal no século passado foi perceber que os elefantes tinham um ritual muito claro e preciso sobre a sua morte e a dos do seu grupo. Muitas manadas voltavam à um preciso e determinado local não só para morrer mas também para celebrar seus mortos. “Astonishing!” dizia a mídia científica, “como podem animais supostamente irracionais terem esse tipo de comportamento?” Como podem eles saber aonde estão seus antepassados? E é isso mesmo, os elefantes choram? Como assim, sentem? Raciocinam? Entendem seu próprio ritual?” E eu, um apaixonado pela Ciência aguardava aflito as cenas do próximo capítulo! O que mais vão eles descobrir? E à isso, na minha cabeça de criança, se juntavam as estórias de ruínas desenterradas no Peru, na América Central, África, Europa e todas as discussões dos arqueólogos, antropólogos, sociólogos sobre uma explicação de cunho religioso para todas aquelas manifestações perdidas no tempo e no espaço.

O tempo passa, a vida segue, crescemos, os fatos seguem seus rumos, estudamos, arrumamos trabalho, namoramos, transamos, amamos, casamos, brigamos, separamos… amigos entram e saem da nossa vida como entram e saem as malas da minha. Cidades, estados, países e a vida vai. Construímos, desfazemos, refazemos, abrimos, fechamos, investigamos, nos frustramos, conseguimos, vencemos, perdemos, aprendemos… E nesse curso a vida segue seus meandros como um rio que atravessa uma planicie de aluvião, serpenteando, abrindo novos caminhos, aprendendo terreno novo.

Mas eis que um dia você olha a fotografia e alguns rostos que você conheceu não estão mais lá. Se foram, nalgum momento deixaram de existir. Doído no momento, muitas vezes um alivio pela responsabilidade prometida “até que a morte lhes separe”, fato. E essa passagem da “existência” para a “não existência” é um pulo, e às vezes, ou muitas vezes, te pega na hora despreparado. Se vão.

Mais tempo passa, mais água sob pontes que já nem função tem mais. E eis que um dia você entende o significado de Finados. Elefantes que voltam para relembrar seus mortos e aprender alguma coisa mais na reflexão sobre o relacionamento, agora congelado no tempo e no espaço. Religioso?

Nesse momento agora em que escrevo me encontro sentado sobre uma pequena pedra no meio do Mato, sob a sombra de paineiras, magnólias e de uma goiabeira. Sim, uma goiabeira é meu pai. Plantamos essa árvore após seu falecimento. Pequena goiabeira, ele pediu. Plantamos. Moro perto. Não voltei mais, não voltei mais até o dia de hoje. Grande goiabeira, aguentou de novo!

Vim porque me deu vontade! E trouxe umas coisinhas que ele gostava. Já ouvimos Bach e Tchaikovsky, trouxe uns biscoitos de rosquinha que ele gosta, mas só quatro (eu queria trazer três, ele pediu mais um, vai lá eu dei!). Também trouxe água. Achei graça de mim mesmo trazendo isso subindo a escada porque parecia que eu estava fazendo uma oferenda. Uma oferenda! Logo eu um amante da ciência? Onde já se viu?

É algo ritual, terreno, da natureza. Algo xamânico, africano, nao sei, nao sei porque isso não é religião, é apenas uma forma de, na ausência, poder bater um papo. E enquanto toca Souvenir d’un lieu cher: Melodie eu vou dando os biscoitos e a água. Meu pai era da terra, era bastante terreno, talvez aí fonte do nosso desencontro. Mas vim, como um elefante, refletir, me emocionar, aprender e agradecer.

Há de se haver tempo para que brote a árvore

Há de haver tempo para que se brote a saudade.

Há de haver tempo para que haja compreensão.

É a Vida, é toda sua e só sua.

Viva a Vida!!

Bom dia de Finados.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *