A Romania de 2002 e a Reforma da Previdência

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Bom dia… eu sei que é meio chato falar de política e economia no domingo mas… é assim, cada um se diverte com o que gosta!

Muitos anos atrás, quando eu era magro e tinha cabelo – muito e preto (prova enclosed) visitei com amigos locais uma Romania “quase recém saída” do regime do Ceaucescu. O país era uma mistura de montanhas e cidades rurais do século XIX e Bucareste central, que parecia uma mistura de Paris dos anos 30 com prédios megalomaníacos do seu ultimo ditador soviético e blocos enormes de concreto nos quais pessoas moravam. Chamavam a isso de “prédios residenciais” como sabemos como são, os havia visto em Berlim.

Seu povo, pobre num país rico, fervorosos católicos que agora podiam expressar sua fé de que dias melhores viríam, por que naquele momento era apenas o que podiam fazer…

Enquanto passeava com meus amigos locais por Bucareste, tudo muito cinza, cidade sem cor, carros brancos, azuis e cinza apenas pontilhados por alguns vermelhos saudosistas, tentava buscar as perguntas para entender o que havia acontecido ali, até que entramos em um bairro específico. Mansões lindas, free estand ou pequenos prédios charmosos de 4 andares, em terrenos muito grandes mas um pouco mal cuidados, uma area elegantemente decadente. E daí meu amigo me disse: “isso tudo aqui era proibido de visitar durante o regime de Ceausescu…” e claro, entendia fácil o porquê: jardins, praças com canteiros de flores, percebia-se que havia sido um lugar muito bonito…

E eu perguntei: “e quem morava aqui? Quem construiu isso?”

Ele me explicou: “essas mansões foram feitas no curto ciclo de grande força econômica do país, entre as duas Guerras européias, éramos o maior produtor de petróleo da Europa e um dos maiores produtores de alimentos também, Bucareste era conhecida como “a pequena Paris”… mas fizemos escolhas erradas, o país se alinhou à Alemanha nazista e depois da Guerra, como éramos de menor interesse para os aliados que a Alemanha, entramos como moeda na troca e ficamos para a União Soviética…”

“- Uhm… é… e essas casas?”

“- Bem, essas casas foram abandonadas depois da guerra mas com a chegada dos Russos, primeiro elas foram usadas por eles e, depois, quando foram embora e deixaram seu governo-satélite, foram ocupadas pelos burocratas do governo…Nós não podíamos passar por aqui, era tudo fechado com blocos, arame farpado, guardas e cancela… esses eram os nossos magnatas comunistas!

“- como assim?”

“- Ganhavam bem, tinham seus próprios supermercados, lojas de roupas importadas da Europa e dos EUA, dirigiam seus carros, moravam nessas casas mas aí de quem dissesse alguma coisa! Vc não sabia se o seu novo vizinho não era da policia, e eles faziam exatamente isso: te forçavam a se mudar de onde vc vivia, da sua casa, do seu bairro, dos seus amigos… todo mundo, era compulsório, e te diziam “cuidado, seu novo vizinho pode ser da policia e estsr te vigiando…” e diziam isso para todos! Assim vc nunca, nunca sabia se voce iria ser denunciado por algima coisa (escrevendo isso hj eu me lembro do projeto do Lucio Costa para Brasilia, me dá calafrios…). A Revolução Comunista, tanto aqui quanto na Rússia e nos outros países satélite foi, na verdade, a substituição da elite burguesa arcaica e exploradora pela elite de funcionários públicos, arcaicos, eles mesmo burgueses, e exploradores. Na fábrica onde eu trabalhava – forçado, porque não queria mas um trabalho me foi determinado, ganhava o equivalente à 400 rublos, todo mundo ganhava isso e 90% era infeliz.. mas a gente se acostuma. Por sorte não tocaram em parte das terras da minha família, muito trabalho para eles, e fazíamos algum dinheiro extra vendendo lenha no inverno…”

“E agora?” “Agora não sabemos…”

“- E o que aconteceu com essas pessoas, esses burocratas que moravam aqui?” “-bem, muitas já morreram, seus descendentes sumiram, outros foram presos, acusados de roubar, mas vc sabe, tiramos uns, entram outros… só não moram mais aqui… muita visibilidade! Os mais inteligentes no início do processo foram embora, grande parte para Moscou, aprendemos. Cirílico na escola, outros para Paris, afinal, éramos ou não a “pequena Paris? E hoje temos os novos magnatas do petróleo e a Mafia local… rsrsrs, mas temos novos negócios, hoje as empresas de fora começam a olhar para nós…

Resumo, hoje a Romênia é parte da União Europeia e tem um PIB per capita (PPC) de mais de US$ 19.000,00 e IDH 0,811 contra os US$ 15.600,00 e IDH 0,759 do Brasil. Somos próximos hoje, além do idioma de base parecida (voce, com boa vontade e criatividade consegue ler algo em Romanche). E em comum tanto lá quanto cá a elite dos funcionários públicos… por 40 anos uma pequena classe de burocratas, privilegiados pela proximidade do poder e que organizaram um país para lhes dar conforto e segurança enquanto que os demais cidadãos vivem nos 400 rublos + dinheiro da lenha. É justo o protesto deles, afinal de contas não criaram as regras, apenas as seguiram. Mas não lhes deixam mudar, essa é a diferença tanto la quanto cá e, na era dos extremos, fazer qualquer crítica aos privilégios de poucos é quase crime lesa-pátria, não podemos. Mas fica a provocação, fica a ideia de que por mais difícil que seja abrir mão de uma gorda aposentadoria cedo na vida para gozar por muitos anos, talvez até mais do que os que passou trabalhando, é a justiça e a ética para além dos privilégios legais que está em jogo. Nesse momento estamos laceando a corda dos funcionários públicos e deixando a outra corda tensa. Não é justo.

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